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‘Precisamos inovar na gestão’, diz Covas

‘Precisamos inovar na gestão’, diz Covas

O prefeito Bruno Covas em seu gabinete: “Temos várias comunidades integradas em São Paulo de imigrantes e migrantes, não existem conflitos étnicos nem religiosos”

O prefeito Bruno Covas, de 38 anos, tem menos de dois anos para mostrar a que veio. E, em entrevista exclusiva ao Fanfulla na sede da Prefeitura, no Palácio Anhangabaú, deixou claro que não há tempo a perder. Além de trazer um estilo informal ao cargo, trocando o paletó e gravata por jeans e tênis, Covas faz planos para modernizar a máquina da Prefeitura, com uso de tecnologia para dar mais agilidade e velocidade na entrega dos serviços públicos. No entanto, o prefeito da maior cidade da América Latina mostra que olhar para frente também significa preservar o passado. Para ele, São Paulo é exemplo de integração e de diversidade para o mundo, graças aos imigrantes e migrantes que aqui chegaram e sempre foram acolhidos, tirando da pauta de preocupações questões que atormentam outros países, como a xenofobia. “Fico feliz de estar à frente de uma cidade que representa algo que a maioria dos países ainda discute como atingir”, disse ele na última quarta, dia 20, enquanto gerenciava uma solução para a crise causada pelo aumento de IPTU de até 50%, por um erro da Prefeitura.

O Jornal Fanfulla, tradicional jornal da comunidade italiana fundado em 1893, está sendo relançado como um veículo endereçado a todos os paulistanos, de todas as origens. Como o sr vê a retomada desse canal de comunicação direta com os paulistanos?
Com satisfação. O segredo da cidade de São Paulo é o seu DNA — migrantes e imigrantes que vieram em busca de oportunidades. São italianos, portugueses, japoneses, libaneses, mas  baianos, cearenses, mineiros e paranaenses. Foi essa gente, do Brasil e do mundo inteiro, que construiu a cidade de São Paulo. Temos várias comunidades integradas, não existem conflitos étnicos nem religiosos.

São Paulo é um exemplo de integração?
Exemplo de integração e de diversidade para o mundo. Fico muito feliz de estar à frente de uma cidade que representa algo que a maioria dos países ainda discute como atingir. A questão da xenofobia é uma preocupação no mundo inteiro. E, aqui, abrigamos refugiados venezuelanos, haitianos, sírios, sem contar as outras levas do passado. Essa é força da cidade de São Paulo, que tem essa importância mesmo sem ser cidade litorânea nem capital do país. Temos 12 milhões de pessoas que vieram aqui para trabalhar. Não era um polo político, e sim econômico. É um caso raro no mundo.

“O ensino de italiano no rede municipal é uma oportunidade para capacitar professores,  aproximar os dois países e manter viva a cultura italiana na cidade”

Cerca de um terço da população paulistana tem sobrenome italiano. No ano passado, o sr. assinou um convênio com o Consulado da Itália para oferecer aulas de italiano a alunos do Ensino Fundamental da rede municipal. O que a cidade ganha com isso?
Quando assinei o convênio, o cônsul Fillipo La Rosa lembrou que São Paulo está entre as dez maiores cidades do mundo com italianos – sendo que as outras nove estão na Itália. Obviamente essa conta daqui inclui nascidos na Itália, com dupla cidadania e descendentes. Estamos introduzindo o ensino de italiano na rede municipal. A primeira turma de professores está sendo qualificada por meio desse convênio. Representa, além da possibilidade capacitar nossos professores, uma oportunidade de aproximar os dois países e manter viva a cultura italiana na cidade.

O sr. assumiu a prefeitura da maior cidade da América Latina com pouco mais de dois anos de prazo para imprimir a sua marca. Quais são as prioridades de sua gestão e a maior dificuldade enfrentada no cargo?
As ações da Prefeitura poderiam se resumir em três grandes eixos. O primeiro é cuidar das pessoas — tentar reduzir a fila em creche, colocar remédio em posto de saúde, construir unidades habitacionais e olhar para os que vivem na rua. O segundo eixo é cuidar da cidade. Envolve a questão da zeladoria, que precisa melhorar, a construção de corredores de ônibus e essa questão que se tornou prioritária, a manutenção de pontes e viadutos. Além de cuidar das pessoas e da cidade, vem o terceiro eixo, que é inovar na gestão. Estamos implementando uma série de inovações por meio do uso de tecnologia, seja para licenciar, emitir alvarás e etc. Estamos tocando um processo de desburocratização e também de desestatização, para dar mais agilidade e velocidade na entrega dos serviços públicos.

E qual foi a maior dificuldade que o sr. enfrentou?
Difícil escolher. Nesse curto período que estou no cargo já tive de enfrentar um prédio que desabou, um viaduto que cedeu, uma greve de caminhoneiros e, agora, uma greve de professores. O que não falta em São Paulo são grandes desafios.

“Precisamos estimular a convivência entre investimento privado e preservação da memória, com geração de emprego e renda”

Como toda grande metrópole em constante transformação, São Paulo vive o dilema urbanístico entre preservar — seja um parque, um bairro ou um prédio de importância histórica– e permitir que as forças do mercado imobiliário atuem numa determinada área com grande potencial econômico. Como conciliar memória e modernização urbanística?
Temos bons projetos nesse sentido – a ocupação da Prefeitura aqui, no Edifício Matarazzo (Palácio Anhangabaú, no Viaduto do Chá) é um exemplo. Recentemente entregamos outros dois edifícios de importância histórica na Rua Libero Badaró, que estavam fechados, foram recuperados e agora são utilizados como equipamentos públicos. Temos também boas iniciativas do setor privado. O projeto de reconstrução do Hospital Matarazzo, na Avenida Paulista, é outro bom exemplo de convivência entre investimento e preservação com geração de emprego e renda. Há outros casos em que os órgãos de preservação do patrimônio histórico atuaram e vejo que há espaço para essa convivência na nossa cidade.

O sr enfrenta algumas questões polêmicas. Houve uma falha, reconhecida pela Prefeitura, no reajuste do IPTU, que chega a 50% em 90 mil imóveis. Existe a possibilidade de o sr. rever o aumento nesses casos de reajustes muito elevados?
Tiveram esse aumento os imóveis que tiveram reajuste acima dos 3,5% dado pela planta genérica de valores, por conta da inflação do ano passado. Isso ocorreu porque parte desses imóveis ultrapassou a faixa de isenção. Quando isso acontece, existe aplicação de alíquotas diferenciadas. No passado, o sistema da Prefeitura não percebia essa mudança de faixa – apenas aplicava o aumento de 3,5%.  Neste ano, o sistema percebeu isso. O lançamento de 2019 foi correto – portanto, não houve erro.

E como evitar uma cobrança tão grande de uma vez?
Ao invés de cobrar, que seria retroativo, vamos criar um projeto de lei diferente: deixar de cobrar em relação ao que deveria ter sido cobrado em 2018, 2017, 2016 e 2015. Esse problema vem desde a gestão anterior. E agora também estamos colocando na lei do IPTU a trava de 10% para este tipo de aumento. Isso porque a lei do IPTU diz que não há trava de 10% quando o dono do imóvel tem perda de isenção, apenas quando tem reajuste da planta genérica de valores. Com isso evitamos que isso se repita daqui para frente.

“A proposta de proibir canudos plásticos em bares e restaurantes terá o mesmo efeito que o fim da sacola plástica nos supermercados. A população acaba se adaptando”

O sr. já demonstrou interesse em sancionar um projeto de lei, em tramitação na Câmara, que proíbe canudos de plásticos em bares e restaurantes, que deverão oferecer canudos em papel reciclável ou biodegradável. O sr. espera encontrar resistência do setor serviços a essa lei?
Quando fui secretário estadual do Meio Ambiente enfrentei uma polêmica parecida quando defendi o fim da sacolinha plástica no supermercado. Grande parte da população acabou se adaptando a isso. Acho que qualquer iniciativa que reduza o fim da dependência do plástico é bem-vinda. O plástico vem do petróleo e precisamos enfrentar a questão do aquecimento global, que é o grande desafio do século XXI.

Mas o sr. prevê resistência dos proprietários de 20 mil bares e restaurantes da cidade?
A gente percebe que a cidade está madura para essa discussão quando se reconhece que é preciso abrir mão de uma comodidade individual para um benefício coletivo. Não é por acaso que 47 dos 55 vereadores são coautores desse projeto.

O turismo tem grande espaço para crescer além do chamado turismo de negócios na capital. O exemplo é o Carnaval em São Paulo, que andou apagado até alguns atrás, e agora se transformou num dos maiores eventos do ano na cidade. O que a Prefeitura promete esse ano de novidade?

A política pública de Turismo era feita pela SPTuris. Era basicamente uma empresa de eventos, mas o mandato de turismo vai muito além disso. É preciso ter visão estratégica do turismo, como gerador de emprego e renda. É uma das nossas vocações. Com a venda da SPTuris, prevista para abril, a Câmara Municipal solicitou que a gente tivesse um outro órgão para cuidar dessa política pública. Criamos uma Secretaria de Turismo para pensar como agregar essas várias pequenas iniciativas. Temos na cidade inúmeros eventos e precisamos manter o turista nos finais de semana. A taxa de ocupação dos hotéis da capital de segunda a sexta é de mais de 92%. No sábado e domingo, cai para abaixo de 50%. O turismo de negócios é a principal atração – temos feiras, convenções, congressos, etc –, mas a cidade não está preparada para agregar o turista no final de semana.

“Em pouco tempo, vamos ultrapassar o Rio como melhor carnaval do país. Criamos um evento bancado pela iniciativa privada que é livre, democrático, descentralizado e organizado”

Quais as melhores opções?
O carnaval é um deles. O Rio de Janeiro, que é maior centro do carnaval brasileiro, arrecada 2,2 bilhões de reais. O carnaval daqui já deve chegar perto, com previsão de movimentar 1,9 bilhão de reais este ano. Em pouco tempo vamos ultrapassar o Rio como melhor carnaval do Brasil. Este ano teremos mais de 500 blocos, quase 600 desfiles passando por 300 percursos em 29 subprefeituras. É um trabalho de um ano inteiro para colocar de pé a estrutura. O investimento é privado, da ordem de 16 milhões de reais – a Prefeitura entra apenas com a organização. É um evento livre, democrático, descentralizado e organizado. As pessoas estão deixando de sair de São Paulo porque agora têm uma opção que simplesmente não existia. No ano passado, pela primeira vez, o Terminal Barra Funda registrou mais gente chegando do que saindo de São Paulo no período de Carnaval.

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