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Os erros que fazem São Paulo sofrer com enchentes há 90 anos

Os erros que fazem São Paulo sofrer com enchentes há 90 anos

As cenas impressionantes causadas pelo temporal que desabou em São Paulo no último domingo, dia 10 de março, mostraram como a maior cidade da América Latina – onde vivem mais de 12 milhões de pessoas — continua vulnerável às chuvas.

Desde a grande enchente de 1929 (foto acima), considerada a maior da história da capital paulista, São Paulo passou por grandes transformações. A população aumentou 20 vezes e a mancha urbana avançou em todas as direções.

Mas erros de planejamento, crescimento desordenado, ocupação ilegal de morros e áreas de várzea, falta de obras de infraestrutura e, mais recentemente, aumento exponencial da produção de lixo da população, que entope bueiros e córregos, e até o aquecimento global ajudam a explicar esse drama, que se arrasta há 90 anos.

“São Paulo tem grandes áreas de seu território situadas em morros e planícies à beira dos rios. São regiões com baixo valor de mercado e, por isso, ocupadas com habitações precárias e sujeitas aos danos causados pelas chuvas”, afirma o geólogo Eduardo Macedo Soares, pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).

De acordo com a Prefeitura, cerca de 1,3 milhão de pessoas (11% da população da cidade) vivem em favelas, boa parte situadas nesses locais. Um outro levantamento, do IBGE, aponta que pelo menos 650 mil paulistanos moram em cerca de 800 áreas de risco — o que torna a capital paulista a segunda cidade do país com maior número de pessoas vivendo nessa situação, atrás apenas de Salvador.

Como ocorre em todo verão, basta uma chuva mais forte como a do último domingo para a cidade se deparar com as mesmas cenas de um filme já visto à exaustão.

As mais de 9 horas ininterruptas de chuva produziram um volume de água equivalente a um terço do total esperado para o mês de março, já tradicionalmente chuvoso. Para se ter uma ideia do impacto, o temporal de domingo foi o maior registrado em 24 anos em toda a Região Metropolitana, formada por 39 municípios do entorno da capital.

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Pessoas ilhadas no Ipiranga: temporal de domingo produziu  maior volume de chuva registrado em 24 anos na Grande São Paulo

Pelo menos 14 pessoas morreram, 10 delas afogadas e as demais, vítimas de deslizamentos em encostas de morros. Quarteirões inteiros da região do ABC e dos bairros do Ipiranga e da Vila Prudente foram inundados, enquanto centenas de pessoas ficaram isoladas dentro de casa, tomada pela água, em ônibus, carros e até no interior de um shopping center do Ipiranga, que abriu uma sala de cinema para as pessoas passarem a noite.

Parte do problema, é preciso reconhecer, se deve à topografia da cidade. São Paulo foi fundada no século XVI numa área elevada cercada por três grandes rios, Tamanduateí, Tietê e Pinheiros – que corriam por extensas planícies em forma de várzea, vulneráveis a inundações.

Durante os períodos de chuva, os rios transbordavam e as várzeas alagavam parte da planície das suas margens. A partir do final do século XIX, quando a cidade começou a avançar em direção aos rios, começaram os problemas.

A primeira intervenção se deu com a retificação do leito do Rio Tamanduateí, na região do Parque D. Pedro, para conter as epidemias de febre amarela, febre tifoide, peste e varíola, causadas pelas cheias. Era o início de um processo de urbanização que ajudou a agravar o problema das enchentes.

Enchente de 1929
No começo do século XX, projetos de canalização dos rios e de drenagem de pântanos foram feitos a toque de caixa, pois a cidade crescia vertiginosamente e a industrialização exigia a geração de energia elétrica.

A Light & Power, empresa de capital canadense responsável pela formação da Represa do Guarapiranga, em 1907, obteve a concessão do governo federal para retificar, canalizar e inverter o curso do Rio Pinheiros em 1927.

O acordo entre a Light e o governo também previa que, em caso de cheias, os terrenos atingidos seriam reconhecidos como propriedade da empresa canadense, que passaria a atuar também no ramo imobiliário.

Dois anos após o acordo, a cidade enfrentou a maior enchente de sua história — a empresa havia aberto as comportas das represas e parte da imprensa acusou a Light de ter feito isso de maneira deliberada.

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Placa na Rua Porto Seguro, na Luz: água a 400 m da margem do Tietê

Para demarcar os terrenos atingidos, a Light providenciou a instalação de pequenas placas, como a que existe até hoje na Rua Porto Seguro, na Luz, situada a 400 metros da margem do Rio Tietê.

O fato é que aquele verão foi marcado por chuvas torrenciais sucessivas nos meses de janeiro e fevereiro. No final de janeiro já haviam sido contabilizados quatro mortos. No dia 18 de fevereiro, cinco dias após as últimas chuvas fortes nas cabeceiras dos dois principais rios da região, um temporal devastou a cidade.

O Rio Tietê chegou a 3,45 metros acima do nível normal. Além do Centro, Casa Verde, Canindé, Ponte Pequena, Barra Funda, Lapa, Vila Maria e Vila Anastácio também foram devastados pelo temporal. Freguesia do Ó e Limão ficaram isolados. As linhas de trem para Santos e Sorocaba também foram inundadas. Os desabrigados foram levados para a Hospedaria dos Imigrantes enquanto a situação não se resolvia.

“A Light não escondeu que as comportas foram abertas, mas o objetivo, segundo argumentou, não era o de ampliar o efeito da enchente, mas, ao contrário, o de diminuí-lo. Se não o tivesse feito, as represas transbordariam, e aí sim as águas correriam com potência muito mais devastadora sobre a cidade”, escreveu o jornalista Roberto Pompeu de Toledo no livro A Capital da Vertigem: Uma História de São Paulo de 1900 a 1954.  

Aquecimento global
Embora na época ainda não existia a medição de índices pluviométricos, a enchente de 1929 é considerada a pior de São Paulo porque o impacto causado na capital paulista, em termos proporcionais, foi maior, atingindo praticamente todas as regiões da cidade.

Para o climatologista Carlos Nobre, um dos maiores especialistas mundiais na área de estudos sobre mudanças climáticas, o volume de chuvas do último domingo provavelmente foi superior ao da enchente de 1929.

Segundo ele, o padrão de chuvas mudou de forma acentuada nos últimos 80 anos, por causa do aquecimento global. “A partir dos anos 30, quando começaram a ser feitas medições pluviométricas, havia em média apenas um episódio por década de chuva com volume acima de 100 ml”, diz Nobre. “Nos últimos 20 anos, a média passou a ser de uma chuva por ano com esse volume”, acrescenta.

No último domingo, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) registrou 160 ml de chuva em um dos 100 pluviômetros espalhados pela Região Metropolitana. Vários deles registraram índices acima dos 100 ml.

Nobre observa que o aquecimento global é apenas parte da grande mudança climática em São Paulo. O fenômeno é atribuído à elevação de temperatura do Oceano Atlântico, que está 0,8°C mais quente do que há 80 anos.

“Uma das fontes de vapor d’água das chuvas intensas é justamente a brisa que vem do oceano. Ela chega ao planalto onde está situada a capital paulista carregando mais umidade, em virtude do aquecimento global”, afirma Nobre.

Enchente no Vale do Anhangabaú, em 1967: temperatura média de SP aumentou 3,5°C nos últimos 80 anos

Além do aumento de temperatura do oceano, outro fator que agrega mais umidade ao ar é o fato de a cidade ter passado por um processo de urbanização acelerado. O desmatamento e ocupação em áreas de várzeas dos rios impermeabilizaram o solo. O resultado é mais calor e, por tabela, maior formação de chuvas intensas.

“A Região Metropolitana de São Paulo tem, em média, temperaturas 3,5°C mais quentes do que há 80 anos. Desse aumento, 1ºC pode ser atribuído ao aquecimento global. O resto é efeito da chamada ilha urbana de calor — fenômeno climático que ocorre a partir da elevação da temperatura de uma área urbana se comparada ao de seu entorno, no caso, as matas da Serra do Mar e da Serra da Cantareira”, diz.

Caos urbano
A grande questão é como a cidade mais rica do país deixou a situação chegar no atual estágio.

Duas razões são apontadas pelos especialistas: o rápido crescimento da população da cidade, no século XX, e o inevitável espalhamento da mancha urbana – processo que foi feito sem planejamento urbanístico.

Os números são assustadores. Em 1900, São Paulo tinha cerca de 240 mil moradores. Em 1920, quando a cidade já havia se consolidado como polo comercial e industrial, a população mais que duplicou, chegando a 580 mil pessoas.

O crescimento seguiu em ritmo frenético nas décadas seguintes. Nas décadas de 1940 e 1950, a população de São Paulo cresceu a uma taxa de 5,2% ao ano, influenciada pela migração interna (cerca de 73% desse crescimento) e também pela imigração de japoneses, chineses e coreanos. Em 1940, por exemplo, São Paulo abrigava 1,3 milhão de moradores – número que passou para 6 milhões em 1960.

O urbanista Lucio Gomes Machado, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), atribui parte do caos urbano atual, fruto do crescimento desordenado da cidade, a um processo de descontinuidade administrativa que teve início há 40 anos.

“No governo Franco Montoro (1983-1987), a Emplasa (empresa responsável pelo planejamento metropolitano do Estado de São Paulo) foi reorganizada com uma equipe técnica de altíssima qualidade. Na época, a Emplasa fez vários planos contra enchentes, por exemplo. Já no governo seguinte, de Orestes Quércia (1987-1991), os órgãos de coordenação metropolitana foram desmontados e desde então não houve mais planejamento metropolitano de forma articulada”, afirma.

Segundo ele, outro erro é tentar deixar apenas nas costas da prefeitura a política de combate às enchentes. “A enchente não é um problema exclusivamente municipal. Por definição, é uma questão hidrológica, ou seja, regional. Aliás, a definição da Região Metropolitana de São Paulo foi feita a partir da bacia hidrográfica – de coleta de água dos mananciais e também de seu escoamento. Não adianta atacar o problema num único município, precisa envolver os 39 municípios da Região Metropolitana, o que não ocorre”, acrescenta.

Lixo e piscinões
Nas últimas gestões, a Prefeitura de São Paulo vem atacando as enchentes em duas frentes. Uma delas pela chamada zeladoria – limpeza de bueiros e córregos, poda de árvores, recolhimento de entulho e coleta de lixo. A outra pela construção de piscinões, estruturas que servem para conter a água da chuva que acabaria ocupando ruas e avenidasSão 22 piscinões espalhados pela cidade.

O lixo, porém, acabou se transformou num vilão à parte das enchentes. A cidade é responsável por um terço do lixo produzido no Brasil — são 20 mil toneladas de resíduos sólidos por dia. Desse total, 72% correspondem a resíduos domésticos e apenas 1,2% são de resíduos sólidos reciclados e tratados adequadamente.

Estima-se que 3 mil toneladas de lixo são abandonadas nas ruas todos os dias, entupindo bueiros e agravando o problema das cheias.

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Vilão de enchentes: cerca de 3 mil toneladas de lixo são abandonados por dia em São Paulo, entupindo bueiros

A arquiteta e consultora ambiental Veronica Polzer, especialista em resíduos sólidos e professora da Universidade Mackenzie, observa que boa parte desse lixo despejado irregularmente é composto de entulho.

“A Prefeitura dispõe de mais de 90 ecopontos, locais de descarte de lixo reciclável, e o entulho tem valor econômico por ser 100% reciclável. Por falta de informação, a população não destina corretamente esses e outros resíduos, como plásticos, que têm relação direta com as enchentes”, diz.

Descaso
Para completar, nos últimos dois anos, a Prefeitura gastou apenas 30% dos recursos previstos para combater os efeitos das chuvas — apenas 38% do que estava orçado para obras e monitoramento de prevenção e enchentes e 35% do previsto em obras de drenagem.

A justificativa é de que essas obras contavam com o financiamento de verbas federais, o que segundo o município não ocorreu.

Em nota, a Prefeitura ressaltou que o orçamento para as rubricas relativas a ações preventivas contra enchentes para 2019 teve aumento de 21% em relação a 2018.

O prefeito Bruno Covas (PSDB), que estava de férias no exterior no dia da enchente, antecipou a volta para tomar medidas – entre elas, a decretação de situação de emergência em quatro bairros (Ipiranga, Cambuci, Vila Prudente e Vila Carioca).

O governo estadual tampouco fez a sua parte. Gastou, entre 2014 e 2018, apenas R$ 1,8 bilhão dos quase R$ 4 bilhões previstos para prevenir as enchentes no Estado.

No entanto, a Lei Orçamentária Anual de 2019, aprovada pela Assembleia Legislativa no fim do ano passado, prevê R$ 760 milhões para o governo investir em ações de prevenção a enchentes. Esse valor é 24% inferior ao orçamento previsto em 2018 (R$ 1 bilhão).

Na quarta-feira, o governador João Doria (PSDB) anunciou a construção de um piscinão na divisa entre São Bernardo, São Caetano e São Paulo.  A obra é orçada em R$ 400 milhões, mas ainda depende de recursos externos que podem vir do governo federal ou de financiamento junto ao Banco Mundial.

Soluções
Em meio a esse quadro desolador, especialistas apontam caminhos para tentar amenizar o problema.

Melhorar a zeladoria e construir mais piscinões já ajudaria. O geólogo Eduardo Macedo Soares, do IPT, acrescenta a adoção de outra medida, já aprovada pela Assembleia Legislativa, mas que nunca foi cumprida – a Lei das Piscininhas.

“É a criação de reservatórios domésticos e empresariais para acumulação e infiltração de águas de chuva”, diz Soares. “A partir de determinado tamanho da obra é preciso ter retenção da água nas calçadas e sarjetas drenantes, para combater a impermeabilização.”

A consultora ambiental Veronica Polzer propõe ações em três eixos para direcionar melhor o lixo produzido na cidade. “O primeiro deles é melhorar a infraestrutura urbana de coleta, criando mais ecopontos e ampliando o número de lixeiras”, diz. “Além disso, precisamos investir em educação ambiental, para que a população não descarte na rua produtos não biodegradáveis como plásticos, remédios e baterias de celular, que, além de contribuir com as enchentes, criam problemas sanitários”, acrescenta. O terceiro eixo seria a criação de incentivos econômicos para reciclar o lixo.

O climatologista Carlos Nobre sugere uma medida simples e barata. “Reflorestar os topos de morros que estão desmatados reduz em mais de 60% o risco de deslizamento em encostas”, diz.

Ele adverte que a cidade precisa se conscientizar de que as mudanças climáticas terão forte impacto na questão das enchentes.

“São Paulo deve pensar um futuro de chuvas cada vez mais extremas”, adverte o climatologista, lembrando que a expressão “terra da garoa”, como a capital paulista era conhecida, deixou de fazer sentido desde os anos 80 por causa dos efeitos da chamada ilha urbana de calor.

A tendência, portanto, deveria ser a de rebatizar São Paulo para “terra das enchentes” – como, por sinal, já tem ocorrido há 90 anos.

Com reportagem de Italo Denardi

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