Select Page

O imigrante que virou cronista de São Paulo

O imigrante que virou cronista de São Paulo

O imigrante Matthew Shirts, nascido nos EUA, na Vila Madalena: ‘São Paulo é inesgotável’ (Foto Emiliano Capozoli Biancarelli)

O americano Matthew Shirts não é simplesmente um imigrante a mais na cidade, como milhares de estrangeiros que um dia decidiram viver em São Paulo.

Aos 61 anos, não fosse traído levemente pelo sotaque, Shirts poderia ser considerado um paulistano da gema: adora descobrir restaurantes novos e baratos, reclama do trânsito, torce pelo Corinthians e desfila na ala da Velha Guarda da Escola de Samba Pérola Negra, da Vila Madalena – onde morou a maior parte dos 35 anos que vive na capital paulista.

Seu fascínio por São Paulo é tão grande que ele virou um cronista da cidade e reconhecido na rua pelos paulistanos, algo raro para um estrangeiro. Nessa área seu currículo é invejável. Foi colunista do jornal O Estado de São Paulo, entre 1994 e 2011 e, mais recentemente, na Veja São Paulo, além de ter publicado dois livros — O Jeitinho Americano – 99 Crônicas (editora Realejo, de 2010) e A feijoada completa e outras crônicas (Realejo, de 2016).

Desde 2016, Shirts comanda diariamente na BandNews FM, ao lado de Eduardo Barão, a coluna São Paulo para Paulistanos – com dicas de passeios, arte e gastronomia da cidade.

Shirts descobriu São Paulo por acaso. Fazia um intercâmbio em Dourados (MS), em 1976, quando a família brasileira que o hospedou fez uma viagem de trailer que passou pela capital paulista. Ficou fascinado. Voltou em 1979, para outro intercâmbio, dessa vez na USP.

Depois de se formar em Ciências Sociais pela Universidade de Berkeley, fez pós-graduação em História na Universidade de Stanford, onde teve oportunidade de estudar História do Brasil com o pensador americano Richard Morse, especialista em América Latina. Mudou-se de vez para a capital paulista em 1984.

Por aqui fez carreira no jornalismo, passando por várias publicações. Casou duas vezes e tem três filhos e um neto – todos paulistanos. A seguir, trechos da entrevista que Shirts concedeu a José Eduardo Barella e Italo Denardi, do Fanfulla.

Qual foi a impressão de São Paulo quando você veio para cá pela primeira vez?
Foi em 1976. Era um intercambista de Dourados (MS) e levei um susto quando a família que me hospedou me trouxe para São Paulo. Eu não acreditei, era um mar de prédios cinzas, não conseguia me orientar. Achei a cidade fascinante. Voltei em 1979, como intercambista da USP. Aí me apaixonei. Sempre tive uma pegada de intelectual e a USP estava saindo da ditadura, com muitas coisas acontecendo. Achava São Paulo muito real, excitante, romântica, porque é suja, industrial, caótica e tinha gente de todo tipo. Fiz grandes amigos. Voltei para os EUA, comecei a estudar a história do Brasil e ainda voltei algumas vezes –estava aqui quando o Brasil perdeu para a Itália, na Copa do Mundo de 1982. Voltei de novo em 1984, para trabalhar e pesquisar. Acabei casando e tendo filho. Então fiquei.

Como foi a decisão de morar em São Paulo?
Estava gostando muito daqui. Mas para viver aqui tive de procurar trabalho — percebi logo que não teria muito futuro dando aula de História do Brasil para brasileiros…. Então dei aula de literatura, inglês, trabalhei na Folha de S.Paulo, Editora Globo e na Abril. Fiz muita coisa, São Paulo sempre foi generosa comigo com trabalho.

Hoje, quando você recebe alguém de fora, qual a principal característica de São Paulo que você gosta de mostrar?
Antigamente eu gostava da boemia e levava amigos e parentes para beber. Mas, hoje, eu sou um senhor mais comportado e os levo a restaurantes bons. Gosto também de mostrar o Centro e alguns bairros, como o Bom Retiro e a Liberdade.

O que tem em São Paulo que você nunca viu em outro lugar?
Há uma característica muito legal de São Paulo: consegue ser, ao mesmo tempo, uma cidade imensa e uma cidade do interior. Moro há muitos anos na Vila Madalena e vi o bairro crescer. Conheço todo mundo – o dono da mercearia, da farmácia, das livrarias, os garçons de todos os botecos. Acho que é da cultura personalista brasileira, de pessoas que gostam de conhecer outras pessoas. Não sei se isso é comum em outras cidades grandes, mas em São Paulo, para mim, é marcante.

“São Paulo consegue ser, ao mesmo tempo, uma cidade imensa e uma cidade do interior”

Como é ser cronista da cidade?
Fiquei famoso de uns anos para cá, quando comecei a fazer, na BandNews FM, o programa São Paulo para paulistanos, com o Eduardo Barão. Em qualquer lugar da cidade que eu vá, não apenas na Vila Madalena, as pessoas me reconhecem pelo sotaque e pela voz. Acho isso muito legal.

Como uma pessoa que veio de fora, o que mais te incomoda em São Paulo?
O trânsito, sem dúvida. São carros demais. Quando cheguei, nos anos 80, era muito bom dirigir em São Paulo. Desde então, a frota de carros cresceu muito. Hoje virei um “rato de metrô”, tento fazer tudo usando o metrô. Também ando de ônibus, mas não gosto da poluição que emite, do óleo diesel. De maneira geral, acho que o sistema de transporte público da cidade tem de melhorar, ainda é muito maltratado. Tenho uma tese sobre isso: a maioria dos governantes nunca usou transporte público. Só andam de carro, e com o motorista – não precisam estacionar nem correm o risco de ter o carro roubado. Ou seja, desconhecem os problemas que a maioria da população enfrenta. Então não há perspectiva de melhora. Não sou como aqueles radicais que acham que os políticos deveriam se tratar no SUS. Mas seria bom se usassem um pouco de transporte público.

Você acha que o paulistano é diferente do brasileiro médio?
Cada lugar do Brasil tem suas particularidades que é possível identificar – o baiano, o carioca, o mineiro, o gaúcho. Mas, nesses mais de 30 anos que eu estou aqui em São Paulo, algo que eu achei interessante foi a mudança da comunidade japonesa. Antes era muito fechada, agora ficou mais mestiça. É comum ver um paulistano que é meio japonês e meio italiano, por exemplo.

“A palavra que mais se ouve em São Paulo é ‘cliente’. O paulistano vive para o trabalho”

O paulistano tem alguma característica de comportamento que o diferencia dos demais brasileiros?
O paulistano é muito focado no trabalho. A palavra que mais se ouve em São Paulo — até entre jovens – é “cliente”. O paulistano vive para o trabalho.

São Paulo foi formada por imigrantes e migrantes. Essa mistura é perceptível?
Sim, claro, minha impressão é que mais da metade de quem vive aqui veio de outro lugar. São Paulo, por exemplo, é muito italiana. Não tinha ideia da influência italiana quando cheguei aqui. É, também, uma cidade muito japonesa e com muita gente do interior. Quem vem de cidade pequena – cresci no interior dos EUA — tem a mesma percepção que tenho sobre São Paulo. Estou sempre descobrindo coisas novas na cidade. Quando comecei a apresentar o programa na BandNews, há três anos, achei que teria dificuldade quando esgotasse meu repertório — que durou uns três meses. Mas nunca faltou coisa nova para descobrir aqui e ainda tem vários bairros que não conheço – e já estou aqui há mais de 30 anos. É impressionante o tamanho e a diversidade de São Paulo. A população da cidade é quase cinco vezes maior que a do Uruguai. Isso sempre me fascinou. Onde você vai tem coisas interessantes para conhecer. Outro dia descobri uma igreja feita por escravos no Pari. São Paulo é inesgotável.

Você acha que são Paulo poderia aproveitar mais esse multiculturalismo em termos turísticos?
São Paulo vem melhorando muito, mas ainda não explorou essa vocação turística. Por exemplo: São Paulo tem grandes museus, mas não sabe vendê-los. Em 2014, três jovens norte-americanos que viajam pelo mundo e mantêm um blog escreveram um post, que teve mais de 1 milhão de views, cujo título, em inglês, apresentava São Paulo como “a cidade mais subestimada do mundo”. A tese deles é que se trata de uma cidade cheia de coisas fascinantes para conhecer, com restaurantes, museus e futebol, entre outras atrações. De fato, existem museus muito bons, com acervo rico, que quase ninguém se interessa em visitar – um exemplo é o Museu Afro Brasil, no Ibirapuera. Toda vez que vou lá vejo muitos visitantes do exterior, mas pouca gente daqui.

“Temos uma cena culinária que se renova. O paulistano adora restaurantes novos e baratos”

Você acha que a oferta de restaurantes com culinária de diversos lugares do mundo é a principal tradução desse multiculturalismo?
Com certeza. São Paulo tem essa tradição italiana de gostar de comida, que só melhora. Temos uma cena culinária que se renova. Mas noto que seguimos tendências culinárias mundiais até certo ponto. A comida tailandesa, por exemplo, é apreciada no mundo inteiro, mas aqui não fez tanto sucesso. A comida japonesa explodiu em São Paulo por motivos óbvios, mas quando cheguei aqui, nos anos 80, os restaurantes japoneses eram frequentados apenas por japoneses – a maioria dos donos não falava português. Isso foi mudando radicalmente e de forma rápida. O paulistano adora restaurantes novos e baratos. Quando descubro um restaurante diferente e gostoso, que não custa uma fortuna, faz o maior sucesso no meu programa.

Você gosta de futebol, tem algum time de coração?
Eu sempre gostei muito de esportes. Quando vim ao Brasil pela primeira vez, em 1976, não acompanhava futebol. Passei a me interessar e achei que seria divertido me declarar corintiano –naquela época, o Corinthians estava havia 22 anos na fila. Todo mundo ficou surpreso. Anos depois começou a Democracia Corintiana. Cheguei a escrever artigos acadêmicos sobre o tema na minha curta carreira de historiador. Mas jamais deixei de acompanhar e torcer pelo time até hoje.

Qual a personalidade que, na sua opinião, é a cara do paulistano?
Tem muitas pessoas que adoro, que poderia citar. Mas quem tem mais a cara de São Paulo, para mim, é a Rita Lee. Sem dúvida, a mais paulistana de todas as paulistanas e paulistanos que conheço.

Sobre o Autor

Fanfulla

Postagens dos nossos colaboradores

2 Comentários

  1. Jair Dias

    muito legal, adoro ouvir ele na rádio

    Responder
  2. margarete

    amei!!! é muito legal ver o ponto de vista de gringos sobre São Paulo, e até fico mais orgulhosa ainda de ser paulistana 😀

    Responder

Deixe resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *