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‘Imigração criou multiculturalismo único em SP’, diz historiadora

‘Imigração criou multiculturalismo único em SP’, diz historiadora

O caráter multicultural de hoje da capital paulista, uma metrópole sofisticada, com diversas opções de lazer e uma culinária que é referência mundial, tem origem sobretudo nas diversas ondas de imigrantes que aqui chegaram a partir do final do século XIX. Ao contrário de outras grandes metrópoles que abrigam comunidades formadas por imigrantes – como Nova York, Londres e Paris, onde boa parte dos diferentes grupos é fechada ou vive em guetos –, São Paulo se destaca pelo fato dessas comunidades conviverem entre si, muitas vezes morando no mesmo bairro e com grande número de casamentos mistos. É o que afirma a historiadora Sonia Maria de Freitas, uma das maiores especialistas sobre imigração em São Paulo. Autora de 12 livros sobre essas comunidades, Sonia atuou como pesquisadora e curadora do Museu de Imigração, do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e do Museu da Imagem e do Som (MIS). A seguir, trechos da entrevista que ela concedeu a José Eduardo Barella e Italo Denardi, do Fanfulla:

São Paulo recebeu um grande número de imigrantes entre o final do século XIX e meados do século XX. Quais são as características em comum desses diferentes grupos?
A imigração em São Paulo é dividida em várias etapas, cada uma com fluxos e características diferentes. No período que vai do final do século XIX e até os anos 60 do século XX, cerca de 3,8 milhões de imigrantes se fixaram na cidade de São Paulo, que hoje conta com pelo menos 75 grupos étnicos ou nacionais. É um número significativo que mostra o caráter multicultural da cidade de São Paulo, único em todo o mundo, pois esses imigrantes de várias origens, diferentemente do que ocorre em outros países, também se relacionam entre si. Se antes havia povos que estavam em guerra na Europa, aqui os filhos frequentam a mesma escola, são vizinhos. É comum, por exemplo, ver descendentes de italianos ou portugueses casarem com asiáticos e latinos. Aqui, árabes e judeus convivem em harmonia.

É possível afirmar que os imigrantes têm uma visão semelhante da cidade de São Paulo?
Independentemente do status socioeconômico, eles se sentem realizados. Seja um operário que construiu uma casinha na Mooca seja o empreendedor que venceu. Todo começo de um imigrante é muito difícil. É preciso obter emprego, aprender a língua, adaptar-se ao clima e costumes. Outro efeito importante desse processo de adaptação foi o florescimento do empreendedorismo nessas comunidades, empurrado pela necessidade de lutar por espaço ou para a sobrevivência. Muitos dos grandes grupos econômicos do Brasil de hoje foram criados por imigrantes ou descendentes de imigrantes da capital paulista.

“Do final do século XIX e até os anos 60 do século XX, cerca de 3,8 milhões de imigrantes se fixaram na cidade de São Paulo, que hoje conta com pelo menos 75 grupos étnicos ou nacionais”

Como se deu a imigração italiana, uma das primeiras e mais numerosas?
Ela começa no final do século XIX, por iniciativa do governo federal e também do governo paulista, com o objetivo de trazer mão de obra para as plantações de café, produto que era exportado. Em 1903, por causa de denúncias de maus-tratos, o governo passou então a proibir a vinda, com direito a subsídio, de imigrantes italianos para as plantações de café. Foi quando começaram a chegar mais espanhóis e portugueses e, a partir de 1908, os japoneses. A imigração direcionada para o plantio de café durou até os anos 30.

Imigrantes búlgaros na construção do Viaduto do Chá, em 1936

A chegada de imigrantes mudou de perfil após o ciclo do café?
Na verdade, o segundo grande fluxo de imigrantes começa a chegar entre os anos 10 e a década de 20. São imigrantes fugindo de perseguições políticas ou crises internas em seus países. Do Leste Europeu vieram principalmente búlgaros da Bessarábia, russos foragidos da revolução de 1917, ucranianos, poloneses e judeus, entre outros. Outro fluxo grande dessa época veio do Oriente Médio, por causa do domínio turco no Império Otomano: sírios, libaneses e, após 1915, os armênios — vítimas do que é considerado o primeiro genocídio da história. Foram cerca de 1,5 milhão de mortos. A perseguição provocou um êxodo de armênios para vários países, incluindo o Brasil.

Qual foi o perfil de imigrantes após a Segunda Guerra?
Era uma imigração mais qualificada, por exigência do governo brasileiro. Era, portanto, diferente da primeira leva, sem grande instrução, que veio para trabalhar nas plantações de café. Mas São Paulo nunca deixou de acolher imigrantes. A partir dos anos 60, por exemplo, vieram chineses e muitos coreanos, que tiveram de abandonar o país após a guerra que gerou a divisão entre Coreia do Sul e Coreia do Norte. Dos anos 70 e 80 em diante chegaram os latino-americanos — chilenos, uruguaios e argentinos, fugindo da ditadura militar em seus países e, mais recentemente, bolivianos e peruanos.

“O Bom Retiro é um exemplo de bairro que foi mudando de perfil ao longo do século XX. Primeiro vieram os italianos e depois, os judeus. A maioria acabou migrando para outras regiões da cidade. Hoje, os coreanos ocuparam e revitalizaram o bairro”

Em sua tese de doutorado, a sra. produziu um trabalho interessante ao obter registro oral da adaptação em São Paulo por parte de 250 imigrantes ou descendentes de imigrantes. O que mais lhe chamou atenção nesses depoimentos?
A metodologia deste trabalho, denominado História Oral – Possibilidades e procedimentos, permitiu acesso a uma história viva, contada a partir da experiência pessoal desses imigrantes. A partir dos relatos, com uma riqueza enorme de detalhes, fui aprendendo características de cada cultura — costumes, hábitos religiosos, culinária, etc — e consegui mapear as marcas desses imigrantes nos diferentes bairros de São Paulo. Ou seja, foi possível estabelecer uma geografia da imigração na cidade. Os primeiros italianos, por exemplo, se estabeleceram no Cambuci, Bexiga e Mooca; os portugueses, na zona norte – região da Vila Maria, Santana, Tucuruvi, Imirim. Os primeiros espanhóis ficaram na Baixada do Glicério e Brás. Muitas comunidades, à medida que foram melhorando economicamente, foram mudando de bairro. E estes recebiam outros grupos de imigrantes no lugar.

Tem algum exemplo de grande alteração com a troca de moradores?
O Bom Retiro é um caso exemplar. Inicialmente era um bairro pobre, ocupado por operários italianos. Nos anos 20, chegaram os judeus e eles começaram a se estabelecer na região. Construíram seus templos religiosos, teatros, escolas, enfim, dominaram o bairro. Com o envelhecimento da população, o avanço socioeconômico das famílias e a transformação dos filhos em doutores, eles partem para Higienópolis e Jardins — bairros que hoje podem ser considerados com grande população de origem judaica.

O Bom Retiro tem hoje forte presença coreana. Qual o impacto deles no bairro?
Quando os coreanos começaram a ocupar o Bom Retiro, a partir dos anos 70, o bairro estava em nítida decadência. Em relação ao que era no passado, poucos judeus permaneceram lá. Os coreanos não só ocuparam como revitalizaram o Bom Retiro. Criaram lojas com vitrines grandes, pé direito alto, cuidaram da limpeza, enfim, levaram uma sofisticação que não existia. A Liberdade é o exemplo oposto de transformação de uma região por imigrantes: não só manteve a maioria de moradores asiáticos como conseguiu reproduzir um pedaço do Japão na caracterização do bairro.

“A globalização afetou as comunidades de imigrantes. As gerações mais jovens de descendentes acabaram se afastando da cultura de origem da sua família”

Há influência visível de comunidades menores em bairros da capital?
Sim, porque acabam construindo templos religiosos e outras marcas facilmente identificáveis. Na Vila Alpina, perto da divisa com São Caetano, há muitos descentes de imigrantes russos e eslavos. As igrejas ortodoxas e luteranas estão situadas em regiões onde vivem os imigrantes eslavos ou protestantes de origem europeia. Os lituanos continuam morando na Vila Zelina, onde ergueram uma igreja. Além disso, têm associação cultural, bares e restaurantes com culinária típica.

São Paulo é uma cidade aberta aos imigrantes ou apenas tolerante?
Historicamente, o novo sempre causa impacto. As famílias tradicionais paulistanas, por exemplo, não olhavam bem para os primeiros italianos que chegaram. Estudei muito a formação da Universidade de São Paulo, a USP, criada em 1934. Conforme as comunidades foram prosperando, permitindo oferecer educação de qualidade para as gerações mais novas, começaram a surgir professores de origem síria, libanesa e judaica na USP. Curiosamente, os de origem italiana só chegaram depois em maior número. Hoje a USP e a cidade convivem com essa mistura de forma natural.

Vivemos num mundo globalizado, sem fronteiras, fruto do processo de avanços tecnológicos da era digital, que nos permite acesso amplo à informação em tempo real. Qual o impacto dessa mudança nas comunidades de imigrantes, que geralmente buscam manter as tradições históricas e culturais dos países de onde vieram?
A globalização afeta as comunidades aqui e na sua origem. Com a globalização, a cultura local inicialmente perdeu apelo em países como Itália e Portugal. Isso tem reflexo na comunidade de imigrantes nos países onde se fixaram. As gerações mais jovens de descendentes acabam se afastando da cultura de origem da sua família. Há um impacto nas associações, que os jovens deixaram de frequentar. Mais recentemente, porém, vejo surgir uma resistência em relação à globalização. Na França, há um movimento nacionalista que prega a valorização da cultura nacional, como campanhas para consumir queijos franceses, por exemplo. Mas o risco dessa reação é chegarmos ao extremismo, com adoção de políticas e comportamentos xenófobos.

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Fanfulla

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