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A história de um jornal que atravessou séculos

Publicado desde 1893, “Jornal Fanfulla” sempre foi ligado à comunidade italiana de São Paulo

Criado para aglutinar a presença italiana na cidade de São Paulo e no Brasil, o Jornal Fanfulla fez sua estreia com a distribuição da primeira edição impressa, em 2 de julho de 1893. No início, era uma publicação produzida por italianos, com conteúdo predominantemente na língua italiana e distribuição focada na capital paulista.

A marca mais tradicional ligada à cultura e à presença italiana na cidade e no país já cruza três séculos de serviços prestados. O jornal surgiu durante um período de grande proliferação de títulos em língua italiana ou bilíngue, focados na comunidade de origem italiana, entre 1870 e 1940.

Sua linha editorial foi mudando de acordo com os acontecimentos de cada período. Em julho de 1917, por exemplo, o Fanfulla fez uma ampla cobertura da primeira greve geral da história do país. Cerca de 50 mil operários (10% da população paulistana) paralisaram praticamente todas as fábricas de São Paulo exigindo melhores condições de trabalho. 

As condições eram péssimas. A jornada era de 12 horas diárias e os trabalhadores não tinham direito a férias, aposentadoria, adicional noturno nem descanso no fim de semana. Os salários eram baixos. A greve durou uma semana e foi duramente reprimida pela polícia, deixando cerca de 200 mortos. O movimento foi vitorioso, pois pela primeira vez o poder público no Brasil negociou com os trabalhadores.

Boa parte dos grevistas era de origem italiana. O Fanfulla, indiferente à influência anarquista do movimento, apoiou os trabalhadores italianos. Já entre os anos 20 e 40, durante o período fascista na Itália, o jornal se alinhou com o ditador Benito Mussolini.

Trajetória
Em tempos em que a comunicação ainda engatinhava, o Fanfulla contribuiu para que os imigrantes se informassem, em sua língua nativa, sobre os acontecimentos em seu país de origem e também na cidade e país que adotaram.

Em 1907, eram cinco os diários dirigidos aos ítalo-brasileiros: FanfullaLa Tribuna ItalianaIl SecoloAvanti! e Corriere D’Italia. De todos, o Fanfulla foi o que conquistou mais prestígio e leitores. A tiragem chegou a 20.000 exemplares em 1915 e 40.000 em 1934, atrás apenas do jornal O Estado de S. Paulo, o ‘Estadão’.

Fundado pelo imigrante italiano Vitaliano Rotelini, no início o Fanfulla era um semanário distribuído aos domingos. Teve diversas configurações e ajustes em seu título, como a introdução de ‘Gazzetta del Popolo’ (1899-1900).

Em 1908, Angelo Possi assume a gestão do jornal até a pausa no final da década de 30 – o jornal não circulou durante a II Guerra Mundial. A publicação foi retomada por Gaetano Cristaldi até 1963, quando o Fanfulla foi adquirido por Alessandro Del Moro.

O jornal fez uma pausa também em 1965, retomando as atividades em 4 de novembro de 1966 com o acréscimo ao título de ‘La Settimana’. A data da volta foi escolhida por ser o Dia da Vitória dos Aliados na II Guerra Mundial. Com a morte de Del Moro, assumiu a gestão em 1981 sua esposa Mariana Dellarole, conhecida como Marianita. Ela permaneceu no comando até falecer, em 2 de abril de 2015.

Desde então, o Fanfulla foi administrado pelo sobrinho-neto de Marianita, Leonardo Dellarole, auxiliado pelo pai, Luciano Dellarole, sobrinho da ex-proprietária. A edição impressa foi interrompida em 6 de fevereiro de 2013. Leonardo seguiu editando a versão eletrônica do Fanfulla na internet, com conteúdos em português e italiano, até o início de 2018, quando o veículo foi comprado pelo grupo liderado por Márlon Bueno, atual CEO da empresa controladora.

Durante toda a sua existência, o Fanfulla foi a publicação de maior importância e tradição do gênero, promovendo a integração e informação entre os milhares de italianos que viviam especialmente em São Paulo, onde chegaram a representar quase 40% da população da cidade. Eram tempos em que São Paulo era considerada a maior cidade italiana do mundo.

Por que Fanfulla?


Monumento a Fanfulla da Lodia, na Piazzetta Raimondello Orsini, em Lecce, Itália

O jornal Fanfulla foi batizado com esse nome em homagem a Fanfulla da Lodi, nome de batalha de um líder italiano nascido na província de Lodi, região de Lombardia, no noroeste da Itália. Não há informações precisas sobre a data de nascimento ou mesmo o nome do guerreiro. Historiadores italianos concordam que se trata de um herói nacional, mas discordam sobre o nome verdadeiro. Quatro possibilidades são citadas:

  • Bartolomeo Giovenale
  • Giovanni Fanfulla
  • Giovanni Bartolomeo Fanfulla
  • Bartolomeo Tito Alon

Giovanni Bartolomeo Fanfulla é considerada a alternativa mais provável, por ser mencionada com frequência nos chamados cupons do Tesouro de Nápoles. Essas menções são as únicas provas de sua existência e atividades em vida. 

Jornais ‘italianos’ no Brasil – pós-1870

  • 1870 Garibaldi e Il Movimento, Il Corriere D’Italia, L’Emigrante, La Bestia Umana e L’Immigrante
  • 1886-87 Gli Italiani in Brasile, Gli Italiani a San Paolo, Il Tevere
  • 1889 La Lega Italiana, Il Fulmine
  • 1890 Il Progresso Italo-Brasiliano, Il Cittadino Italiano,Il Pensiero Italiano
  • 1891 Il Messaggero, La Sfida
  • 1891-96 Il Diavolo Nero, Gli Schiavi Bianchi, Le Forche Caudine, La Patria Italiana, L’Amico delle Famiglie, La Giustizia, Il Lavoro, Fanfulla, La Tribuna Italiana, L’Avvenire, L’Immigrante, Il Secolo, Il Popolo, Il Ficcanaso e Il Biricchino
  • 1924 Moscone
  • 1946 Giornale Degli Italiani
  • 1948 La Tribuna Italiana
  • 1949 Giornale Degli Italiani (2a fase)
  • 1956 Moscardo
  • 1958 Il Picolo
  • 1966 La Settimana (continuação do Fanfulla)
  • 1974 Corriere Italo-Brasiliano

Entre inúmeras participações diretas na vida da comunidade ítalo-brasileira, o Fanfulla também teve papel decisivo no surgimento de um dos principais clubes de futebol do Brasil. Foi nas páginas do Fanfulla que um grupo de italianos de São Paulo decidiu convocar interessados em fundar um clube de futebol que representasse a colônia. A convocação deu origem, em 26 de agosto de 1914, à fundação do Palestra Italia, hoje Palmeiras.