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‘Facilitamos o agendamento do passaporte’, diz cônsul

‘Facilitamos o agendamento do passaporte’, diz cônsul

Cônsul-Geral da Itália em São Paulo há seis meses, Filippo La Rosa admite que a dificuldade de agendamento para tirar o passaporte italiano e a fila da cidadania, um processo em que 200 mil descendentes têm de esperar 12 anos, são os maiores gargalos que encontrou ao assumir o posto. La Rosa, porém, mantém o otimismo e  surpreende-se a cada dia com o legado da imigração italiana na cidade, da arquitetura à culinária, e afirma ter detectado um desejo dos descendentes de imigrantes de resgatar a ligação com a Itália. “Há muita italianidade que ficou escondida, esquecida”, diz. É a segunda vez que La Rosa atua no Brasil. Em 2000, serviu na Embaixada da Itália em Brasília como responsável pelas relações econômicas e comerciais bilaterais. Deixou o país no final de 2004, retornando em 2013, como Vice-Chefe da Missão junto à embaixada. No cargo, foi encarregado de coordenar as atividades da rede diplomático-consular no Brasil nas áreas econômico-comercial e cultural no período que coincidiu com a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio. Aos 51 anos, casado e pai de duas filhas, La Rosa deu a seguinte entrevista exclusiva ao Fanfulla:

Como o sr. vê a volta do Fanfulla, um veículo que fez muito sucesso principalmente no início do século XX, no auge da chegada de imigrantes italianos, e agora retorna com uma proposta mais aberta, buscando atrair todos os paulistanos e não apenas a comunidade italiana?
Considero importante o surgimento de mais uma voz, principalmente se for ampla e aglutinadora de interesses, ligando a tradição com a modernidade, e não interessada em acompanhar apenas as atividades de associações e instituições oficiais italianas aqui em São Paulo, como o Consulado. Vejo como bem-vindo um veículo que procure olhar, mais que a comunidade, a italianidade paulista de uma forma moderna. E que procure apoiar as coisas boas que temos, que denuncie o que não vai tão bem e que se apresente também como um porta-voz dos paulistanos.

A influência italiana em São Paulo o surpreendeu?
Estou há apenas cinco meses no cargo. No meu primeiro dia em São Paulo fiz questão de conhecer a Hospedaria do Brás, hoje Museu da Imigração, onde os primeiros imigrantes italianos se instalavam. Os italianos que aqui chegaram nunca ficaram confinados num gueto. Eles sempre procuraram se incorporar à sociedade brasileira. Aos poucos foram estendendo sua influência, principalmente em São Paulo. Podemos dizer que seus descendentes viraram a classe dirigente do país, com participação em vários órgãos e governos. Hoje, por exemplo, o presidente da República (Jair Bolsonaro) e o presidente do Supremo Tribunal Federal (José Antonio Dias Toffoli) têm origem italiana.

Quais são seus principais desafios no cargo?
Pretendo resgatar e ampliar a presença italiana em São Paulo. Há muita italianidade que ficou escondida, esquecida. São pessoas que sabem que têm descendência italiana, mas não falam italiano; que gostam da Itália, mas não viajam para o país. Precisamos de alguém que se proponha a ampliar esse grupo da chamada comunidade italiana em São Paulo, e essa é minha missão.

Como fazer essa reaproximação?
Ampliando os contatos e adotando uma visão abrangente. Como sou cônsul também no Estado, procuro lembrar que São Paulo não começa na Rebouças e acaba na Consolação. Tenho um Estado com uma economia enorme para explorar, e o tecido econômico em São Paulo tem uma origem italiana muito forte. Tenho viajado pelo interior a trabalho. Vamos fazer uma rodada de negócios com empresários com interesses em fazer negócios na Itália ou com empresas italianas aqui em várias cidades. Esta semana vou assinar com o prefeito de Jundiaí um convênio para ensinar italiano nas escolas públicas.  O que me impressiona é essa porcentagem de descendentes de italianos que você encontra e vê que querem ser resgatados, ter uma identidade.

A economia brasileira passou por uma grave crise, mas agora demonstra sinais de recuperação. Há oportunidades de negócios a serem explorados pelas empresas italianas em São Paulo?
A crise foi global, mas mesmo nesse período as relações econômicas entre Itália e São Paulo continuaram a crescer. Muitas empresas italianas não deixaram de investir. Há também grupos novos que chegaram, que fazem componentes de aviões e do setor farmacêutico. Nesta semana, vou inaugurar em Campinas uma grande ampliação do grupo ABL-Antibióticos do Brasil, uma empresa italiana que dá emprego a pessoal especializado na área farmacêutica. Na Grande São Paulo, houve a compra da Enel, que controla a Eletropaulo. A Enel vai virar uma referência no relacionamento econômico entre os dois países. Ou seja, temos setores como de energia, eletricidade, farmacêutico, mecânica, além da área de produção de agroindústria e alimentar, que estão gerando oportunidades para as empresas italianas. Nesta semana, teremos visitas agendadas em São Paulo, uma delas da Sece, espécie de BNDES italiano, que está querendo bancar investimentos no Brasil. Nossa presença aqui sofreu durante a crise, mas se fortaleceu – e foram investimentos produtivos, e não financeiros.

Há uma questão bastante delicada, que é a fila da cidadania. São 200 mil descendentes de italianos aguardando para obter seu passaporte, um processo que dura 12 anos. Como atender essa demanda?
Encontrei dois grandes problemas que precisavam ser enfrentados. O primeiro é a dificuldade do agendamento dos passaportes. Tínhamos um sistema online que acabava nas mãos dos despachantes e as pessoas não conseguiam pegar senha para obter o passaporte. Fizemos uma mudança, aprimorando o serviço. Saímos de um sistema online e passamos para o aplicativo mais utilizado pelos brasileiros, o whatsapp. Quem quer o passaporte hoje tem dois números para ligar no consulado, com duas pessoas atendendo, que fazem a primeira triagem. Nela, lembramos aos interessados que podem solicitar o passaporte apenas se a documentação estiver em ordem. Antes, fazíamos muitos agendamentos e, quando o interessado chegava lá descobria que não podia simplesmente tirar o passaporte porque a documentação estava irregular. Agora isso é feito na primeira triagem via whatsapp e conseguimos aumentar em 25% o número de passaporte que são feitos por dia. Além disso, o agendamento ficou mais fácil. Com isso, o número de pessoas que liga pedindo informações reduziu. Notamos que, quando as pessoas agora chegam ao consulado, afirmam que estão satisfeitas.

E o outro problema?
O segundo ponto é o da cidadania. Temos uma fila de 12 anos, um pouco menos de 200 mil pessoas. Estamos começando a chamar as pessoas que apresentaram o requerimento em 2007. Para se ter uma ideia, são cerca de 32 mil pessoas que fizeram a solicitação naquele ano. Muitas vezes há pessoas que pedem a cidadania por uma necessidade imediata que podemos suprir de outra forma. Um exemplo: o jovem que pretende estudar na Itália. Esse visto de estudo sai em poucos dias. Enfim, estamos com toda a boa vontade de solucionar, mas existe um fosso entre a demanda e a oferta. O que precisa ficar claro é que a demanda de cidadania é um assunto muito sério.

Por quê?
Porque gera um vínculo de cidadania, com direitos e deveres, entre o Estado e o cidadão. Temos a obrigação de fazer as coisas de forma correta. Muitas vezes precisamos procurar certidões e atestados do final do século XIX. Não é algo simples. Temos de averiguar que a linha de transmissão não foi interrompida, que existe de verdade. É algo que exige um trabalho demorado e bem feito. Daí a fila. Mas nosso desejo é trabalhar bem para regularizar o serviço. O que dependia de nós, fizemos.

Há muita reclamação com a taxa de 300 euros para requerer a cidadania, estipulada pelo governo italiano. Para uma família-padrão de 4 pessoas são 1.200 euros. É possível reduzir esse valor?
O valor da taxa é elevado, mas é preciso que o requerente entenda que, nesse processo, ele vai virar cidadão italiano, com os mesmos direitos de qualquer cidadão nascido na Itália, incluindo acesso aos serviços públicos, como saúde e educação. Muitos pensam em requerer a cidadania para obter o passaporte com o objetivo de fazer uma viagem. Se for para isso, é claro que é caro. Mas para quem deseja reconstituir um elo profundo com o país, a visão muda.

O primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, deve vir ao Brasil para se reunir com o presidente Bolsonaro. Já há data agendada para a visita?
Eles se reuniram em Davos e conversaram pelo telefone por ocasião da prisão de Cesare Battisti. O presidente Bolsonaro anunciou que deve ir em maio para a Itália, mas não está confirmada a data da vinda do primeiro-ministro Conte.

O desfecho do caso Battisti foi satisfatório?
O caso Battisti acabou. Bola prá frente.

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Fanfulla

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1 Comentário

  1. RENATO K.

    Minha filha tem tentado tirar passaporte já fazem 4 meses. Antes era o sistema “prenota”, que parecia ser bem estruturado mas com poucos agendamentos ofertados frente à demanda. Agora os numeros WApp.

    Percebo que serviços consulares de outros países são muito mais bem estruturados: tome-se como o exemplo o dos Estados Unidos, que apesar da demanda gigantesca, funciona! Outro exemplo é o consulado alemão, que é um show de informações no site.

    Sinto muito Sr. Consul, os esforços das autoridades em nada melhoraram a burocracia inútil e o tempo de atendimento.
    Custo a acreditar que um dia melhore: a exemplo do Brasil, é uma característica cultural.
    Atenciosamente.
    Renato

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