Select Page

Carnaval de rua voltou para ficar, diz pesquisador

Carnaval de rua voltou para ficar, diz pesquisador

Desfile de bloco em São Paulo

A paisagem paulistana durante o Carnaval mudou de forma radical nos últimos anos. A cidade vazia, quieta e indiferente à folia de Momo deu lugar à invasão de blocos e foliões, transformando o carnaval de rua num dos maiores eventos do ano da capital paulista — a festa movimentou R$ 550 milhões em 2018. Ao longo de fevereiro e até o próximo final de semana, são mais de 500 blocos desfilando em 300 percursos de 29 regiões da cidade, arrastando 5 milhões de foliões – e enterrando de vez a famosa expressão “São Paulo é o túmulo do samba”, cunhada em 1960 pelo poeta Vinícius de Moraes, uma eterna injustiça para sambistas como Adoniram Barbosa, Paulo Vanzolini e do Demônios da Garoa, entre outros.

Para o geógrafo e pesquisador Alessandro Dozena — professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e autor dos livros “A Geografia do Samba na Cidade de São Paulo” e “Geografia e Música: Diálogos” –, a retomada do carnaval de rua em São Paulo faz parte de um fenômeno nacional e incorpora efeitos da globalização, com a presença de blocos formado por imigrantes, com danças e músicas típicas. Mas, nesta entrevista ao Fanfulla, Dozena enfatiza que, diferentemente dos blocos de rua, o samba paulista sempre foi presente e atuante na cidade, chegando a influenciar sambistas cariocas.

Até poucos anos atrás, o Carnaval era visto pelos paulistanos como uma época boa para aproveitar a cidade vazia, sem o trânsito e a confusão que marcam a festa em todo o Brasil. O que causou essa mudança?
Eu acredito que, nos últimos anos, os blocos carnavalescos ganharam força em várias cidades brasileiras em decorrência da necessidade da população por momentos de expressão e manifestação de relações sociais centradas na espontaneidade e na alegria. Com isso, foi possível voltar e se apropriar das ruas do bairro e das praças públicas. No caso da cidade de São Paulo, essa maior visibilidade dos blocos carnavalescos também se deve a algumas iniciativas dos próprios foliões. Um exemplo é o Manifesto Carnavalista, que desde 2013 tem contribuído para a abertura do diálogo com o poder público, principalmente com a Secretaria Municipal de Cultura. O carnaval de rua paulistano sempre fez parte da história da cidade. Posso citar a Banda Bandalha, criada por Plínio Marcos em 1974, ainda existente com o nome de Banda Redonda.

Os paulistanos dão mais importância ao samba ou ao Carnaval?
O samba apresenta uma dimensão mais ampla que a do Carnaval para os paulistanos e está totalmente relacionado com a cidade. Isso sempre me chamou a atenção. Embora a festa carnavalesca tenha sido envolvida pelo espetáculo televisivo, que tem como palco o Sambódromo, ela nunca saiu dos bairros e hoje costura novas relações sociais a partir de uma movimentação própria que se dá nos “territórios do samba”, motivada pelos blocos carnavalescos, rodas e movimentos de samba — além dos eventos que ocorrem ao longo do ano nas quadras das escolas de samba. Ou seja, os sambistas produzem na cidade um território próprio a partir dos bairros, estruturando redes de sociabilidade associadas ao samba. Essa dinâmica territorial se relaciona com as manifestações de samba, com o carnaval, com o cotidiano e com as relações sociais diárias nas quais a comunidade está envolvida.

Como se deu essa divisão territorial do samba na cidade de São Paulo? 
O crescimento acelerado da cidade de São Paulo a partir da década de 1950 foi acompanhado por um processo de urbanização desordenado na periferia. Com isso, o samba dispersou, migrando para áreas distantes do Centro. Num primeiro momento, o samba na cidade de São Paulo era mais presente na Barra Funda, Bela Vista, Brás, Cambuci, Lapa, Liberdade e Santa Cecília. A migração se deu para os distritos situados além do Rio Tietê: Casa Verde, Freguesia do Ó, Santana e Vila Maria.
“A  afirmação de que São Paulo é o ‘túmulo do samba’, atribuída a Vinicius de Moraes, foi feita pela pouca atenção dada à história, força do samba e carnaval paulistanos. Não houve movimento para a divulgação do samba paulista, como ocorreu com o carioca a partir dos anos 1930”

O fato de São Paulo sempre ter sido uma cidade multicultural, com muitas comunidades de imigrantes e seus descendentes, pode ter ajudado a cultivar essa fama de cidade avessa a uma festa tipicamente brasileira?
São Paulo já foi chamada de “túmulo do samba” pelo poeta Vinícius de Moraes. Acredito que a afirmação tenha sido feita pela pouca atenção dada à história, força do samba e carnaval paulistanos, e também em tom de brincadeira. Sempre aconteceram trocas de informações entre sambistas e carnavalescos paulistas e cariocas. As afirmações sobre São Paulo ser o “túmulo do samba” e a “terra do trabalho” tornaram-se popularizadas pelo senso comum, fazendo com que vários compositores e intérpretes — entre eles a cantora e compositora Leci Brandão –buscassem resgatar a importância do carnaval e do samba produzidos em São Paulo.

Qual a razão para essa fama ter perdurado?
Não houve em São Paulo um movimento para a divulgação ou nacionalização do samba paulista, como o que ocorreu com o samba carioca a partir da década de 1930. Isso provavelmente se deve ao fato de o Rio de Janeiro ter sido a capital do país por um longo período, o que lhe proporcionou maior visibilidade. Além disso, as escolas de samba de São Paulo adotaram o modelo de desfile carioca, o que — embora não justifique — contribuiu para a formação de uma imagem de subserviência e inferioridade do samba e do carnaval paulistano em relação ao carioca. Essa fama de cidade avessa a uma festa tipicamente brasileira foi suplantada na atualidade.

O samba feito em São Paulo chegou a influenciar sambistas cariocas?
Sim, sempre houve troca de informações e circulação de sambistas entre Rio e São Paulo. Um exemplo mais recente é o Quinteto em Branco e Preto, grupo de samba paulistano formado em 1997 e que já se apresentou ao lado de grandes sambistas, como Beth Carvalho, Wilson Moreira, Nei Lopes, Dona Ivone Lara, João Nogueira, Elton Medeiros, entre outros. Muitas de suas composições podem ser encontradas nos CDs de Alcione e de Beth Carvalho. Alguns de seus integrantes são compositores fundadores do Samba da Vela, roda de samba inspiradora de dezenas de movimentos de samba pelo país afora.

Algumas das comunidades mais recentes de imigrantes, como bolivianos e os coreanos, aderiram à festa de rua dos blocos — mas vão desfilar com trajes e músicas típicas. O Carnaval é uma festa mundial e eles se propõem a comemorar no formato que fazem em seu país. Como o sr vê essa proposta?
É interessante notar que o fenômeno mundial das “músicas de massa” e da difusão mundial do carnaval brasileiro dialoga com o nosso tempo, interagindo com narrativas locais e globais, integrando gostos musicais de outras regiões e, ao mesmo tempo, adaptando-os à cultura local. Ou seja, se conectam com as comemorações comunitárias e o apego individual e coletivo aos lugares. É o que acontece no Carnaval em São Paulo promovido por esses blocos de descendentes de imigrantes. Assim sendo, os territórios musicais não são conservatórios musicais, mas reveladores de uma das faces mais evidentes da globalização: o contato cultural.

“O Carnaval brasileiro influencia o de outros países. No Japão, a festa tem carros alegóricos, samba cantado em português e ala de baianas. Nos países europeus, há a presença do mestre-sala e da porta-bandeira, além de batucadas que tocam ritmos como maracatu e samba-reggae”

Ou seja, temos em São Paulo um Carnaval globalizado?
Um dos principais efeitos da globalização foi a divulgação dos sons e estilos musicais de diferentes localidades, contribuindo para a configuração de territórios musicais híbridos. Há inclusive uma significativa tendência pelo revivalismo, com a predisposição e a intenção de reviver estilos musicais e músicas do passado, atualizando-as em um contexto cultural demarcado por características pós-modernas.

No sentido contrário, o carnaval brasileiro também influencia o de outros países?
Sim, foi o que constatei em uma pesquisa recente. No Japão, por exemplo, o carnaval tem carros alegóricos, samba cantado em português, ala de baianas e até passistas que sambam e usam adereços trazidos do Brasil. Nas festas carnavalescas europeias, por exemplo, encontramos com frequência a bandeira nacional brasileira, além da visualização de um dos elementos usuais nos desfiles carnavalescos de rua no Brasil: a presença do mestre-sala e da porta-bandeira com seu trajes característicos, que no caso europeu denota alterações em relação ao que se verifica nos desfiles brasileiros. Além da dimensão da vestimenta, há também as da gestualidade, dos efeitos sonoros (há dezenas de batucadas que tocam ritmos como maracatu, samba-reggae ou samba) e dos carros alegóricos.

Sobre o Autor

Fanfulla

Postagens dos nossos colaboradores

Deixe resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *