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A alta temperatura da cena teatral paulistana

A alta temperatura da cena teatral paulistana

Os atores Anderson di Rizzi e Maurício Machado na peça Um Beijo em Franz Kafka, que reestreia dia 29: SP tem mais de cem salas de espetáculo. (Foto: Priscila Prates)

Sergio Roveri é jornalista e dramaturgo
(Foto: Bia Borin)

Teatro nas noites de segunda-feira? Temos, sim. Teatro em piso superior de estabelecimentos comerciais? É por aqui, subindo a escada. Teatro em garagens? Basta puxar uma cadeira e se acomodar. Teatro em apartamentos? É só entrar e não reparar na bagunça.

Nos últimos anos, perguntas como estas – e principalmente suas respostas – já não surpreendem mais o público paulistano. Dentre todas as capitais brasileiras, São Paulo se tornou, de longe, a que mais oferece opções de peças teatrais em todos os dias da semana, seja em palcos convencionais ou espaços alternativos como os descritos acima. E o que é melhor: estamos falando, na grande maioria das vezes, de montagens profissionais, em que o talento dos atores e o rigor da produção deixam para trás eventuais deficiências de infraestrutura.

Sem contabilizar a infinidade de espaços alternativos, que não conseguem divulgação nos guias de programação e roteiros de jornais e revistas, São Paulo dispõe de cerca de cem salas de espetáculos, desde os monumentais teatros Renault, Santander e Bradesco, celeiros dos maiores musicais produzidos no País, até palcos mais intimistas, como o Cemitério de Automóveis, Teatro do Incêndio e Espaço dos Satyros, situados na região central da cidade e que se dedicam a receber peças de produção mais modesta, mais interessadas no experimentalismo, na provocação e na pesquisa de linguagem do que propriamente na bilheteria.

Há vários fatores que contribuem para explicar a alta temperatura na cena teatral paulistana. O primeiro deles, sem dúvida, é a gigantesca população da metrópole, capaz de gerar uma quantidade de público que se conta em centenas de milhares. O segundo é o poder aquisitivo da parcela da população que consegue manter em cartaz, por meses a fios, espetáculos cujos ingressos nos setores mais nobres chegam a custar R$ 300, uma cifra impraticável em outras capitais brasileiras.

Não há como subestimar, entretanto, o poder de algumas políticas públicas, como a Lei Municipal do Fomento ao Teatro que, ao longo de mais de uma década, tem oferecido aporte financeiro para o surgimento e manutenção de dezenas de grupos teatrais, que criaram sedes próprias, aprofundaram projetos de pesquisa, elaboraram novas linguagens cênicas e, acima de tudo, ajudaram na formação de um gigantesco público que, sem iniciativas como estas, seguramente cresceria distante das plateias.

A combinação de todos estes fatores resulta numa programação extremamente diversificada e numerosa: há algumas semanas do ano, normalmente longe do período de férias, em que o público chega a ter à disposição até 120 espetáculos teatrais em cartaz. O difícil, em São Paulo, não é ir ao teatro. O difícil é escolher o que ver.

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Fanfulla

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